Em 2001, Porto Alegre foi a cidade escolhida para receber o encontro que
se oporia o Fórum Econômico de Davos | Foto: Ayrton Centeno
Por Mauri Cruz (*)
Neste janeiro de 2026, celebramos os 25 anos
da primeira edição do Fórum Social Mundial realizada em Porto Alegre e que se
lançou como um espaço de resistência e luta pela construção de um outro mundo
possível, anticapitalista, anti-imperialista e radicalmente democrático.
Neste contexto de comemorações, é
imprescindível refletirmos sobre o que é democracia nos dias atuais. Democracia
seria o presidente Trump mobilizar o exército norte-americano contra seu
próprio povo, com assassinatos, violências e deportações? Democracia seria a
invasão e sequestro de um presidente eleito, Nicolás Maduro, e de sua
companheira, Cília Flores, em total desrespeito a soberania do povo
venezuelano? Democracia seria o abandono das mesas de diálogos e negociações
das Nações Unidas e a postura de xerife do mundo, praticada por Trump e seus
asseclas? A resposta a essa pergunta é fundamental para entendermos o momento
crítico que vivemos.
Para nós, democracia é o poder do povo,
organizado e soberano, que decide sobre seu futuro através de processos
eleitorais e participativos, com responsabilidade e sabedoria popular.
Hoje, o que está em jogo é esse modelo de
democracia participativa, presente em vários países como Brasil, México,
Colômbia, Uruguai, Cuba e Venezuela, onde o povo é convocado a decidir seu
destino, em contraposição a um modelo autoritário que age única e
exclusivamente em benefício do sistema capitalista, voltado para o lucro a
qualquer custo e em detrimento da preservação da natureza e da vida humana.
Trump e a extrema-direita não representam a democracia, mas a face mais cruel
sanguinária das ditaduras.
O FSM nasceu em tempos de desesperança.
Naquela quadra histórica, vivíamos as consequências da queda do muro de Berlin,
ocorrida em 9 de novembro de 1989 e da dissolução da União Soviética em 26 de
dezembro de 1991. Em dois anos, duas derrotas profundas para o campo
anticapitalista e que foram apresentadas como símbolo da vitória do capitalismo
sobre a utopia socialista. Naquele momento, era apresentado um caminho único
para a humanidade: o neoliberalismo defendido pelo Fórum Econômico Mundial de
Davos.
Neste contexto de derrotas e de desilusões, o
Fórum Social Mundial nasceu em Porto Alegre, não como uma novidade de luta, mas
como um espaço de encontros das diversas lutas populares que já existiam. Ele
se tornou um catalisador para a resistência contra o pensamento único, reunindo
forças que lutavam por um mundo mais justo, democrático e igualitário. Essa
iniciativa encontrou em Porto Alegre um processo revolucionário, onde forças
democráticas, de esquerda e progressistas mobilizavam a cidadania para as conquistas de direitos, invertendo prioridades na execução de políticas
públicas e, através da democracia participativa, confrontando, nos marcos da
democracia burguesa, o poder político e econômico das grandes elites
capitalistas. Naquele 2001, em meio as decepções da luta internacional
anticapitalista, havia uma experiência concreta que apontava para um outro
mundo possível. Foi a prática inovadora que nos mostrou o caminho. E assim
nasceu o Fórum Social Mundial.
Mas o mundo que gerou o FSM não existe mais.
Vivemos uma era de extremos. A extrema-direita opera de forma global, com seu
programa máximo que tem a exclusão e a morte como modus operandi. O campo
democrático e progressista em todo o mundo se vê forçado a alianças com as
forças capitalistas e neoliberais que necessitam da democracia burguesa. Há um
ambiente de profunda incerteza e desorganização. Contraditoriamente, a
realidade atual nos demonstra que vivemos um tempo em que há condições
objetivas para a construção de uma sociedade planetária que atenda as
necessidades de todos os seres humanos. A evolução tecnológica, que é fruto do
trabalho humano, possui capacidade de produzir e suprir as necessidades de
alimentação, moradia, saúde, educação, mobilidade, cultura e lazer em um
planeta equilibrado e eficiente. O problema não é econômico, tecnológico ou
social. O problema é político.
No entanto, nós, que somos a verdadeira
alternativa para a humanidade, permanecemos desarticulados e sem capacidade de
uma reação planetária realmente potente. Quando vamos cair na real que, para
mudar esse quadro, é necessário superar a fragmentação dos movimentos sociais e
reconhecer que a luta não se resume aos projetos individuais ou as pautas
específicas?
Quando vamos parar de disputar narrativas,
priorizar os dissensos e as pautas que nos desunem? Temos que aceitar que,
unidos, podemos construir uma transição para uma outra realidade,
pós-capitalista, e defender a sobrevivência da humanidade frente ao fascismo e
este capitalismo apocalíptico. A China, o Brasil e o México, com todas as suas
contradições e dificuldades, nos mostram um caminho.
É hora de incorporar as lições do passado e
reunir forças em torno de estratégias comuns que sejam capazes de construir uma
verdadeira alternativa ao capitalismo. Neste sentido, é preciso reconhecer que,
para construir a unidade, o Fórum Social Mundial é uma experiência válida,
embora não seja a única. Há inúmeros problemas e dissensos sobre como proceder.
Mas precisamos exercitar a paciência histórica. E, em termos históricos, 25
anos é quase nada. Como processo ainda está engatinhando. Faz parte. As experiências
das internacionais socialistas, por exemplo, não tiveram a capacidade de
impedir o avanço do capitalismo neoliberal, no entanto, seguem gerando frutos
para a luta anti-imperialista até os dias de hoje.
Mas estamos ficando sem tempo. Neste ano de 2026,
há um desafio enorme para as esquerdas que é a reeleição do presidente Lula, a
eleição de Iván Cepeda na Colômbia e a derrota de Trump nas eleições de meio de
mandato nos EUA. Mas passa também pela reconstrução e fortalecimento da
articulação dos povos e movimentos sociais latino-americanos em defesa de nossa
soberania e pela retomada do processo de articulação e mobilização da cidadania
internacional em defesa uma governança global multilateral e democrática.
Diante desses desafios, o Fórum Social Mundial em agosto de 2026 no Benin se torna
ainda mais relevante, como um símbolo de resistência, de esperança e de
reconstrução.
Porto Alegre, 25 anos depois, segue cumprindo sua missão
internacionalista e apoiando esse processo global ao realizar a I Conferência
Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos. Nos encontraremos lá.
Pátria Livre! Venceremos!
(*) Advogado, militante social, diretor do
Instituto de Direitos Humanos – IDhES, consultor da Usideias, autor do livro
“Democracia, Direitos dos Povos e do Planeta” pela Editora Usideias. - Fonte: Sul21