quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Fórum Social Mundial: 25 anos na construção de um Outro Mundo Possível

Em 2001, Porto Alegre foi a cidade escolhida para receber o encontro que se oporia o Fórum Econômico de Davos | Foto: Ayrton Centeno

Por Mauri Cruz (*) 

Neste janeiro de 2026, celebramos os 25 anos da primeira edição do Fórum Social Mundial realizada em Porto Alegre e que se lançou como um espaço de resistência e luta pela construção de um outro mundo possível, anticapitalista, anti-imperialista e radicalmente democrático. 

Neste contexto de comemorações, é imprescindível refletirmos sobre o que é democracia nos dias atuais. Democracia seria o presidente Trump mobilizar o exército norte-americano contra seu próprio povo, com assassinatos, violências e deportações? Democracia seria a invasão e sequestro de um presidente eleito, Nicolás Maduro, e de sua companheira, Cília Flores, em total desrespeito a soberania do povo venezuelano? Democracia seria o abandono das mesas de diálogos e negociações das Nações Unidas e a postura de xerife do mundo, praticada por Trump e seus asseclas? A resposta a essa pergunta é fundamental para entendermos o momento crítico que vivemos. 

Para nós, democracia é o poder do povo, organizado e soberano, que decide sobre seu futuro através de processos eleitorais e participativos, com responsabilidade e sabedoria popular. 

Hoje, o que está em jogo é esse modelo de democracia participativa, presente em vários países como Brasil, México, Colômbia, Uruguai, Cuba e Venezuela, onde o povo é convocado a decidir seu destino, em contraposição a um modelo autoritário que age única e exclusivamente em benefício do sistema capitalista, voltado para o lucro a qualquer custo e em detrimento da preservação da natureza e da vida humana. Trump e a extrema-direita não representam a democracia, mas a face mais cruel sanguinária das ditaduras. 

O FSM nasceu em tempos de desesperança. Naquela quadra histórica, vivíamos as consequências da queda do muro de Berlin, ocorrida em 9 de novembro de 1989 e da dissolução da União Soviética em 26 de dezembro de 1991. Em dois anos, duas derrotas profundas para o campo anticapitalista e que foram apresentadas como símbolo da vitória do capitalismo sobre a utopia socialista. Naquele momento, era apresentado um caminho único para a humanidade: o neoliberalismo defendido pelo Fórum Econômico Mundial de Davos. 

Neste contexto de derrotas e de desilusões, o Fórum Social Mundial nasceu em Porto Alegre, não como uma novidade de luta, mas como um espaço de encontros das diversas lutas populares que já existiam. Ele se tornou um catalisador para a resistência contra o pensamento único, reunindo forças que lutavam por um mundo mais justo, democrático e igualitário. Essa iniciativa encontrou em Porto Alegre um processo revolucionário, onde forças democráticas, de esquerda e progressistas mobilizavam a cidadania para as conquistas de direitos, invertendo prioridades na execução de políticas públicas e, através da democracia participativa, confrontando, nos marcos da democracia burguesa, o poder político e econômico das grandes elites capitalistas. Naquele 2001, em meio as decepções da luta internacional anticapitalista, havia uma experiência concreta que apontava para um outro mundo possível. Foi a prática inovadora que nos mostrou o caminho. E assim nasceu o Fórum Social Mundial. 

Mas o mundo que gerou o FSM não existe mais. Vivemos uma era de extremos. A extrema-direita opera de forma global, com seu programa máximo que tem a exclusão e a morte como modus operandi. O campo democrático e progressista em todo o mundo se vê forçado a alianças com as forças capitalistas e neoliberais que necessitam da democracia burguesa. Há um ambiente de profunda incerteza e desorganização. Contraditoriamente, a realidade atual nos demonstra que vivemos um tempo em que há condições objetivas para a construção de uma sociedade planetária que atenda as necessidades de todos os seres humanos. A evolução tecnológica, que é fruto do trabalho humano, possui capacidade de produzir e suprir as necessidades de alimentação, moradia, saúde, educação, mobilidade, cultura e lazer em um planeta equilibrado e eficiente. O problema não é econômico, tecnológico ou social. O problema é político. 

No entanto, nós, que somos a verdadeira alternativa para a humanidade, permanecemos desarticulados e sem capacidade de uma reação planetária realmente potente. Quando vamos cair na real que, para mudar esse quadro, é necessário superar a fragmentação dos movimentos sociais e reconhecer que a luta não se resume aos projetos individuais ou as pautas específicas? 

Quando vamos parar de disputar narrativas, priorizar os dissensos e as pautas que nos desunem? Temos que aceitar que, unidos, podemos construir uma transição para uma outra realidade, pós-capitalista, e defender a sobrevivência da humanidade frente ao fascismo e este capitalismo apocalíptico. A China, o Brasil e o México, com todas as suas contradições e dificuldades, nos mostram um caminho. 

É hora de incorporar as lições do passado e reunir forças em torno de estratégias comuns que sejam capazes de construir uma verdadeira alternativa ao capitalismo. Neste sentido, é preciso reconhecer que, para construir a unidade, o Fórum Social Mundial é uma experiência válida, embora não seja a única. Há inúmeros problemas e dissensos sobre como proceder. Mas precisamos exercitar a paciência histórica. E, em termos históricos, 25 anos é quase nada. Como processo ainda está engatinhando. Faz parte. As experiências das internacionais socialistas, por exemplo, não tiveram a capacidade de impedir o avanço do capitalismo neoliberal, no entanto, seguem gerando frutos para a luta anti-imperialista até os dias de hoje. 

Mas estamos ficando sem tempo. Neste ano de 2026, há um desafio enorme para as esquerdas que é a reeleição do presidente Lula, a eleição de Iván Cepeda na Colômbia e a derrota de Trump nas eleições de meio de mandato nos EUA. Mas passa também pela reconstrução e fortalecimento da articulação dos povos e movimentos sociais latino-americanos em defesa de nossa soberania e pela retomada do processo de articulação e mobilização da cidadania internacional em defesa uma governança global multilateral e democrática. Diante desses desafios, o Fórum Social Mundial em agosto de 2026 no Benin se torna ainda mais relevante, como um símbolo de resistência, de esperança e de reconstrução. 

Porto Alegre, 25 anos depois, segue cumprindo sua missão internacionalista e apoiando esse processo global ao realizar a I Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos. Nos encontraremos lá. Pátria Livre! Venceremos! 

(*) Advogado, militante social, diretor do Instituto de Direitos Humanos – IDhES, consultor da Usideias, autor do livro “Democracia, Direitos dos Povos e do Planeta” pela Editora Usideias. - Fonte: Sul21

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