sábado, 8 de março de 2014

Flávia Schilling: “O exílio deixa marcas, mostra como o ‘enraizamento’ é frágil”



Por Nubia Silveira, do Sul21*

Quem já chegou perto dos 50 anos acompanhou a grande campanha feita no país para libertar a brasileira Flávia Schilling, presa no Uruguai. Ela se tornou o rosto das mulheres que resistiam aos regimes ditatoriais nos países do Cone Sul e conseguiu voltar ao Brasil em 1980, depois de mais de sete anos de prisão.

A gaúcha Flávia, nascida em Santa Cruz do Sul, em 28 de abril de 1953, cresceu numa família politizada. Como ela própria lembra, no Memorial apresentado para o concurso de livre-docência na área de Conhecimento de Sociologia da Educação, da USP: “Marcante foi o dia em que meu pai saiu de casa para ficar no Palácio Piratini, com Brizola, na ‘luta pela legalidade’. Foi a única vez em que vi meu pai armado: era a luta para que João Goulart assumisse a presidência do Brasil.”

Seu pai era Paulo Schilling, jornalista e assessor do ex-governador Leonel Brizola. Ele e todos os liderados por Brizola, em 1961, saíram vitoriosos da resistência ao golpe para impedir que o vice-presidente João Goulart assumisse a presidência da República, após a renúncia de Jânio Quadros. Três anos depois, porém, veio a derrota. Poucos dias após o Comício da Central do Brasil, os militares tomaram o poder. Como outros brasileiros, Paulo Schilling precisou sair do país. Exilou-se no Uruguai.

“Tenho duas memórias fortes do Rio: no dia do comício do dia 13 de março de 1964, o Comício da Central do Brasil, com a população da zona sul, em peso, acendendo velas nas esquinas e nas casas contra a ameaça comunista. Que opressão, que constrangimento sentia, que sensação de isolamento, de sermos minoria! Não era apenas a classe média moradora do Leblon, mas também os moradores da favela próxima à Rua Carlos Góis (onde morávamos) que acendiam as velas e oravam. Havia clima de golpe no ar.

“No dia do golpe, esta cena se repete: as janelas dos apartamentos ficaram cheias de bandeiras do Brasil, de panos brancos, saudando a “revolução” vitoriosa. Não compreendíamos totalmente estas questões, mas víamos e ouvíamos: lições para toda a vida.” (Memorial apresentado para o Concurso de Livre-Docência na Área de Conhecimento de Sociologia da Educação, da USP)

Aos 11 anos, Flávia seguiu o pai, viajando logo depois, ao lado da mãe e das três irmãs. Os primeiros tempos desta nova vida não foram fáceis. Era preciso adaptar-se a uma nova cultura, dominar outro idioma, conhecer melhor a cidade e fazer novos amigos. Nesse tempo de exílio, compreendeu “a efemeridade do ‘poder’”.

“Convivíamos com muitos “ex”: ex-presidente, ex-governador, ex-ministro, ex-reitor da UnB. Um mundo ‘ex’. Isso marca, indelevelmente, minha relação com ‘o’ poder. Nunca mais me fascinei, temi, encarei com temor ou reverência quem – de forma sempre tão precária e instável – ocupa lugares de poder. Isso é muito bom.” (Memorial apresentado para o Concurso de Livre-Docência na Área de Conhecimento de Sociologia da Educação, da USP)

Sete anos depois, em 1971, Flávia ingressa na Faculdade de Medicina, de Montevidéu. Naquele ano, o presidente uruguaio, Juan Maria Bordaberry, dissolve o Parlamento e institui uma ditadura civil-militar no país. Surge então a Frente Ampla em oposição ao regime. E a brasileira se divide entre duas paixões: a medicina e a militância. “Foi uma das decisões mais difíceis de minha vida: quase não tinha mais liberdade para optar, quase não foi uma decisão. Precisei passar para a clandestinidade em abril de 1972”, lembra ela no Memorial. Flavia Schilling - Querida Família

Na noite do dia 24 de novembro de 1972, na Avenida 8 de Octubre, em Montevidéu, ela e seu companheiro foram presos, depois de terem sido seguidos por policiais do Exército à paisana, como contou Paulo Schilling, no texto Flávia Schilling, por seu pai, no livro Querida Família. Foi baleada no pescoço. Ela lembra:

“A polícia chegou, não sabia do que se tratava, enquadrou o agressor, foi informada da situação, fui levada ao hospital militar. Lá fiquei durante um mês, com a traqueotomia, uma lenta e difícil recuperação, quase sem poder falar, durante um longo tempo.”

Ficou detida por cinco anos na prisão feminina em Punta Rieles. Durante dois anos esteve na condição de refém, sendo levada de um quartel a outro, na capital uruguaia. Em Querida Liberdade, outro livro que reúne as cartas que enviou da prisão, um texto dos editores fala sobre as condições em que viveu no cárcere: “regime de calabouço, incomunicação total, humilhações e provocações de todo o tipo (inclusive em duas oportunidades tremendos castigos corporais), transferências constantes e sem prévio aviso de um quartel para outro”.

“O calabouço é pequeno, calculo que 1,5 m por 2,5 m. Tenho uma cama, um armário pequeno que serve de mesa, e uma cadeira. Há espaço para caminhar (cinco passos, ida e volta, cinco passos). As paredes estão pintadas de azul, teto branco, uma janelinha com oito vidros pequenos, cobertos com tinta branca, pelos quais brinco de adivinhar como está o dia, que cor terá o céu. Por um dos vidros, vejo uma árvore. Acho que quando sair vou sentir terror aos espaços abertos e às multidões (se continuo muito tempo aqui). Não temos recreio, e só saímos do isolamento para ir ao banheiro. Tomamos banho uma vez por semana, porque aqui não há água quente e é preciso levar-nos à enfermaria” (carta enviada da prisão de Florida, quarta-feira, 3 de julho de 73, publicada em Querida Liberdade)

As cartas, o tricô, o cigarro e as conversas com as companheiras ajudaram a enfrentar os dias de solidão. A última carta pública foi a que escreveu em São Paulo, no dia 21 de abril de 1980, em agradecimento aos brasileiros. Hoje, prefere os e-mails.

“Esta carta é muito especial: hoje estou sentada em minha casa; já passou tudo (passou?), deparo-me agora, reaprendendo a vida cotidiana, o diálogo, a espontaneidade, todas as pequenas coisas (assim como aprender a abrir uma porta e a tratar com naturalidade uma criança, tudo isso depois de 7 anos e meio), insegura em muitos aspectos, porém, lutando para que o medo à liberdade nunca seja mais forte do que o amor a ela. O mais importante para afugentar os fantasmas do medo são vocês.” (Carta ao povo brasileiro)

Libertada em 7 de abril de 1980, voou para São Paulo. O Brasil vivia o governo do general João Baptista Figueiredo. Foi preciso – mais uma vez – recomeçar, readaptar-se, definir a vida.

“Tempos realmente difíceis, com a ditadura e a repressão ainda presentes no cotidiano. Tempos confusos, de transição (que nunca se completava), de dúvidas e solidão. Os que chegavam, os exilados, com aquela energia indescritível que ainda possuíam, tentavam se situar em um país totalmente outro. Que país é este? Como entrar no país? Quem é quem? O que vale, o que não vale mais? Foram tempos de luta, também. Muitos, como nós, chegamos apenas com as malas, com pouca coisa ou coisa nenhuma. Cheguei, literalmente, com a roupa do corpo. Foi o grande desafio de refazer a vida ou fazer a vida.” (Memorial, USP)

Na capital paulista, Flávia fez sua vida. Teve o filho Pedro, trocou a medicina pela sociologia, trabalhou no Cento de Referência e Apoio à Vítima, assessorou a Comissão da Mulher do Parlamento Latino-americano, participou do Observatório de Direitos Humanos do Mercosul e ingressou como professora na Faculdade de Educação da USP, onde atua ainda hoje. Nesse tempo, orientou 35 trabalhos de conclusão de curso, monografias de especialização, iniciações científicas e teses de mestrado e doutorado. Escreveu 32 artigos, 21 capítulos de livros e nove livros, assinados ou organizados por ela, além de outros textos publicados em anais de congressos e revistas.

Hoje, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Sul21 publica esta entrevista com Flávia Schilling, uma das muitas resistentes às ditaduras. Ela preferiu responder por e-mail.

“A palavra resistência sempre é ambígua. Não se espere encontrar, nas instituições ou em nós aquele ‘diamante puro da resistência’. Vamos nos lembrar que a resistência é algo que se dá no enfrentamento, no face a face, nas relações do poder e é permeada de contradições e ambiguidades. A resistência é uma crítica a uma lógica de determinado sistema, sempre comporta uma crítica a certo sistema.” (Memória da Resistência ou a Resistência como Construção da Memória, publicado no volume 3 da coleção A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul – 1964-1985, editado pela Assembleia Legislativa do RS).

-CLIQUE AQUI  para ler na íntegra*.
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**Nota do Blog 'O Boqueirão Online': Este Editor esteve presente no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, e tem viva na memória a emocionante cena da chegada de Flávia Schilling (vinda do Uruguai e em trânsito para São Paulo, em 07/04/1980), recepcionada por dezenas de companheir@s e militantes  que lutaram por sua liberdade, assim como dos companheiros Flávio Koutzii (preso na Argentina) e de Flávio Tavares (Uruguai) -os 3 'F'). Depois de muita resistência, muita luta e de uma forte campanha internacional, os três finalmente conquistaram a liberdade.  (Júlio Garcia)

Um comentário:

  1. É interessante que a Flávia Schilling não é conhecida pela nova geração de brasileiros. A vida dela deveria ser ensinada nas escolas do Brasil.

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